Vida pessoal x pessoa pública – Por que confundimos tanto?

Por Flavio Canuto

O que mais me irritou ontem não foi só ver o rival ganhando um título, mas toda aquele oba-oba global em cima da morte do ex-jogador Sócrates.

Pensei em escrever algo a respeito, depois deixei pra lá, mas não resisti à tentação de publicar o texto que recebi de um ouvinte de Mondo Palmeiras…espero que gostem:

A vida pessoal de nenhum jogador nos interessa, mas a atuação como pessoa pública deve sempre ser avaliada por todos.

Não é por que a pessoa morre que deva ser reverenciada como símbolo, apenas por ter sido popular ou ter exercido alguma atividade pública.

O respeito à pessoa não significa deixar de questionar suas posições públicas ou simplesmente misturar as coisas.

Outro fator que é muito confundido por todos é a capacidade de exercer alguma atividade profissional com a questão pessoal.

Em termos públicos, Sócrates foi protagonista na “panela” de 82 na Seleção Brasileira, endeusada  pela mídia esportiva por ter seus amigos jogando, e no comando. Um time que poderia ter conquistado o título se não se restringisse a uma “ação entre amigos”.

Participou da chamada “Democracia Corintiana”, um tratamento de eufemismo para a institucionalização da baderna. Conquistou alguma coisa pela condição técnica dos seus jogadores, e pela tradicional força fora de campo que caracteriza a vida daquele clube.

Seus maiores símbolos foram Sócrates e Casagrande, pessoas que jamais poderiam ser exemplo de nada.

Para completar, ainda temos a questão política, pois o ex-jogador se notabilizou pela participação no movimento “Diretas já”, em contrapartida ao seu apoio irrestrito a ditadores, com os quais compartilhava a mesma ideologia.

Ora, quem ostenta posição forte a favor da democracia jamais poderia defender regimes autoritários. Não há lógica, não há coerência, além da total desmoralização do discurso. Não existe ditadura boa e não existe democracia parcial, aquela que deve ser buscada apenas quando os amigos não estão no poder!

A questão humana, da vida de uma pessoa não está em discussão, mas sim a sua história como agente público. Alguém que se tornou símbolo justamente por interessar a quem forma a comunicação.