Um amor para recordar…

Por Fellipe Málaga

Quinta-feira se eu tivesse que, por alguma razão desconhecida, escolher uma trilha sonora para ilustrar, digamos assim, mais um vexame histórico de nossa estimada agremiação esmeraldina. Confesso que seria uma tarefa árdua, não sei o que cairia melhor.

Meu avô, um sábio das equações da vida, velho que me ensinou muitas coisas que não se aprende em bancos de faculdade, entre outras histórias, me confidenciou um dia: “O vento sopra forte, depois enfraquece, mas nunca deixa de soprar, então jamais perca as esperanças, meu neto, ela muitas vezes enfraquece, mas não pode desaparecer jamais, mesmo que a situação diga o contrário…”

Hoje meu avô reside em outro plano, mas suas palavras ainda ecoam em minha mente, principalmente quando me deparo com situações peculiares, onde somente o Palmeiras parece possuir um talento nato para protagonizá-las. Confesso que depois da última presepada do clube que já foi respeitado e temido por todos, busquei respostas com o meu velho avô, no meu subconsciente, pois, quem sabe, ele vendo as coisas lá de cima pudesse elucidar o que meus olhos não acreditavam ver.

Cheguei, em um ato de desespero, a duvidar das palavras do meu avô, contestei sozinho, no escuro do quarto, protestei contra as paredes, discuti com as sombras… em vão. Era verdade. O meu clube do coração, aquele que dias atrás foi heróico, bravo, motivo de orgulho para os que têm sangue verde nas veias, havia sido o protagonista de mais um roteiro cinematográfico de horrores.

Como, ‘Vô’, como acreditar que depois dessa tempestade, que já dura uma década, a bonança virá? Quanto mais teremos que esperar e sofrer e chorar? Será que, no fim, aplaudiremos de pé o final feliz? Será feliz? Teremos um final?

Dia seguinte ao filme de terror, era chegada a hora de aguentar as gozações dos rivais, era preciso trabalhar, olhar as pessoas nos olhos, afinal não fui eu quem tomou os seis gols, quem tomou cartão vermelho ou que errou uma penca de passes. Trânsito caótico e lá estou eu, no transporte coletivo, chateado, maltratado pela noite em claro, aborrecido… Eis que adentra o veículo, subitamente, uma bela senhora de mãos dadas com um garotinho que, para meu evidente espanto, envergava a camisa do Palmeiras, número 10 às costas.

A dupla buscou um local para sentar (seria mais fácil o Palmeiras reverter o trágico placar que encontrar um assento vago ali), mas ambos ficaram de pé, como eu. O garotinho ostentava um olhar meio perdido e eu, compreendendo a situação, olhei para o pequeno e disse: “É duro aguentar um 6×0, não”?

Espantado, o garotinho olha pra mim, com os olhos marejados, e exclama: “É ruim, pior será aguentar os meus colegas na escola, eles trocam de time toda semana, mas eu nunca vou deixar de ser palmeirense, nem que perca todos os jogos, eu AMO o Palmeiras!” Aquilo me atingiu em cheio o peito, a alma. Como que de imediato, lembrei das palavras do meu velho avô, as mesmas palavras que proferi quase que com desdém na madrugada anterior, e as repeti ao jovenzinho: “Garotinho, não perca a esperança, ela é como o vento, fica forte, enfraquece, mas nunca acaba, a esperança jamais pode acabar, certo?”. O pequeno torcedor me olha enquanto uma lágrima escorre em seu rosto e fala: “Tio, seremos campeões ainda, muitas vezes, é só uma fase ruim…”

Desci do coletivo, parei na esquina e não contive o choro, chorei porque senti que aquela era a resposta do meu avô, era a resposta de quem me olha lá do alto, de quem sempre soube o que dizia. Aquele garotinho reacendeu a minha esperança. Alguém que nunca viu o Palmeiras ganhar algo importante dando uma lição em um marmanjo barbado como eu, que se achava forte, calejado, com o couro grosso. Obrigado, garotinho, seja lá qual for o seu nome, você me relembrou que ser palmeirense é isso, é acreditar até o fim, é lutar mesmo que por uma causa aparentemente perdida, é amar mesmo que a dor pareça ser insuportável. Obrigado, menininho, eu recordei o meu grande amor.

Ah, e se hoje eu tivesse ainda que escolher a trilha sonora, eu cantaria em alto e bom som: “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei quero ver quem dava […] Reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima…”, do mestre Noite Ilustrada.

Feliz dia das mães!