Sobre a Mídia Palestrina

Faz um tempo que a gente vem pensando num texto um pouco mais aprofundado sobre a mídia palestrina.

Após os acontecimentos das últimas semanas, acho difícil pensar em circunstâncias mais oportunas para nos debruçarmos sobre a coisa toda.

Então vamos começar do começo. E, já aviso, o papo vai ser meio longo.

Antes de qualquer coisa, vamos combinar: a mídia, e o jornalismo em particular, é um campo de disputas. No Brasil, em especial, essa noção da imprensa como canal para a vocalização de correntes sociais vem desde seu início, ali pelo século XIX.

Mas, sabe como é, o tempo passa, o tempo voa, as coisas mudam. E então século XX adentro os grupos midiático-empresariais, e a idéia da notícia como mercadoria, começou a permear mais e mais o horizonte da imprensa.

Aí a imprensa no Brasil começa a ser lida mais ou menos deste jeito: de um lado, o jornalismo militante, abertamente ligado aos interesses de um grupo social, e visto como anacrônico, de gueto. De outro, o jornalismo de mercado, que, na prestação de serviços, busca legitimidade social e, principalmente, sustentabilidade financeira.

Acontece que essa é uma falsa dicotomia. Essas coisas são todas misturadas.

Olha só: o jornalão tem, é fato, compromisso com uma massa de leitores não completamente homogênea. Mesmo que a gente pense que esse compromisso com a “média” possa ter algum efeito amortecedor em pautas mais enviesadas, é da natureza da empresa jornalística que sejam buscadas pautas que rendam público e, consequentemente, lucro. O modo como isso é desenvolvido é outra coisa, e aí a gente entra numa área mais pantanosa, no papo sobre os subterrâneos das redações e os sequestros de editorias pelas idiossincrasias do dono.

O fato é que a busca da indústria jornalística pelo público médio gera sim um certo enviesamento, um alinhamento com algum grupo social – ainda que pelo tal “nicho de mercado”. E isso não é neutro, não é algo desligado de subjetivismos. Mais que isso, esse processo todo gera uma movimentação entre setores da sociedade, seja por se sentirem representados pelo noticiário (e dotados de alguma voz), seja por se sentirem negligenciados (o que legitimaria sua organização em veículos, veja só você, engajados).

O que nos leva ao que interessa: a Mídia Palestrina.

Não é novidade que a torcida do Palmeiras há muito reclama do tratamento dado pela imprensa tradicional, de mercado, às coisas do clube. Alguns creditam o incômodo a uma suposta má vontade histórica dos jornalões com o Alviverde. Outros acham que o período de poucos títulos acabou contaminando o noticiário, provocando uma espécie de raquitismo na cobertura do Palestra. Existem outras hipóteses também, que não vêm ao caso agora. O que importa, e nisso todos concordamos, é o seguinte: por algum motivo, a crônica esportiva perdeu a mão com as coisas do Palmeiras.

Por mais que editores e colunistas e setoristas e redatores digam, e creditem a insatisfação com as coisas do noticiário ao fanatismo dos torcedores (ah, sempre o fanatismo), o fato é que os torcedores, fanáticos ou não, estão insatisfeitos.

A diferença é que em vez de sentar e chorar, um grupo de torcedores resolveu colocar a mão na massa.

Claro, a coisa não seria assim se não fosse a internet. Isso porque web proporcionou uma “planificação” no diálogo midiático, equilibrou o jogo. Ao mesmo tempo que as tecnologias de produção e difusão da informação se popularizam, tornando-se mais e mais acessíveis, a capacidade de aglutinação do público em torno de um interesse comum, de organização dos esforços, cresce que é uma coisa absurda. Por exemplo: o trabalho do leitor para acessar o OV e o blog do, vejamos, Juca Kfouri, é basicamente o mesmo. Do mesmo modo, o sistema de publicação online do Kfouri é, vejam só vocês, bastante parelho, ou até um pouco pior, que o do OV.

Tudo bem, o Juca está sediado no UOL, o que, faça chuva ou faça sol, rende um fluxo de leitores bastante alto ao seu site. Mas esse trunfo do UOL, que é sua rede de links, sua posição da internet como ponto de acesso, é algo passível de replicação. Pense na teia de links e referências cruzadas dos veículos da Mídia Palestrina. Pense como um texto do OV te leva ao Mondo, que te leva ao Parmerista, que desagua no 3VV, que vai PTD, que segue ao Planeta Palmeiras, e ao Carcamanos, e a vários outros sites. E pense no modo como todos esses sites agregam, juntos, muitos e muitos leitores.

Existe uma rede segura, firme, movimentada de links entre os sítios da Mídia Palestrina. E eles fazem circular uma informação que, noves fora uma excelência técnica muitas vezes não presente no noticiário esportivo, oferecem dados relevantes e do interesse do leitor/ouvinte/espectador palmeirense. São informações que complementam o noticiário, que noticiam para além das limitações da mídia tradicional. Informações que, para além do debate sobre sua parcialidade, são, acima de tudo, objetivas. Claro, essa rede de leitores/veículos/informações não tem, ainda, a dimensão da do UOL. Mas é inegável que a velocidade com que ela vem crescendo e se estabilizando é algo formidável.

A Mídia Palestrina surgiu, e cresceu, e se cristalizou nos espaços negligenciados pelos compromissos mercadológicos da imprensa tradicional. E não cabe à mesma mídia que por tanto tempo tocou no automático o noticiário palmeirense dizer se somos legítimos ou não.

A partir do momento em que a Mídia Palestrina torna-se subsídio para o debate e apreensão das coisas do futebol, que a torcida a abraça e referenda seu trabalho, ela é legítima. Porque nessas coisas, a legitimidade vem de se fazer ser ouvido. E ninguém pode dizer que não o somos.

Já ouviu falar naquela coisa de “Odeia a mídia? Seja a mídia!”?

Então. Nós, palmeirenses, resolvemos ser. E ponto.

* Tiago é um dos idealizadores do Observatório Verde