Prosa Verde: Ferida aberta e amor exposto, mas serei Palmeiras até o fim!

Confesso que foi difícil parar para escrever alguma coisa sobre o nosso querido Alviverde Imponente nesse momento fatídico de rebaixamento. Relutei, pensei em não dizer nada, em apenas silenciar. Um silêncio enlutado. É a mesma situação que tentar consolar alguém que perde um ente querido para sempre. O vocabulário se torna simplório demais, vazio demais para dizer algo que realmente sirva de conforto ou de consolo. Algo realmente válido e útil.

Assistir a um novo rebaixamento é como sentir o coração parar de pulsar pela segunda vez. A primeira foi em 2002 e todos lembram bem. Agora é como se punhalada, apesar de já sabermos a potência do golpe, fosse ainda mais profunda, a ponto de atingir a alma. Eu achava que estava preparado para passar por isso novamente, até porque o descenso já se tornava uma tragédia anunciada a cada rodada sem pontuar e a cada vitória dos concorrentes. Achava. Não estava preparado.

Não sofri como em 2002, isso eu posso garantir. Naquele fatídico ano, eu era vocalista de uma banda de rock bastante conhecida no interior onde eu morava, era um garoto, rebelde, querendo apenas expressar meu gosto pelo Rock Nacional. Naquele 17 de novembro, após a derrota para o Vitória, entrei em desespero, chorei, esbofeteei portas e janelas, gritei, xinguei e acabei não conseguindo fazer o show daquela noite. Lembro bem. Naquele dia, fiquei sozinho, no quarto, a banda se virou, não tive forças, inventaram uma desculpa qualquer para o público e pronto. Problema resolvido, menos o meu…

Agora, dez anos depois, cheio de contas a pagar, casado, bem mais maduro, mas não menos torcedor, fui conversando aos poucos com o meu inconsciente, dialogando com meus botões e deixando claro que o rebaixamento estava se tornando algo muito possível e que eu deveria saber lidar com isso caso acontecesse. Tudo certo então? Não. Nunca. Após o gol daquele atacante que não merece ter seu nome sequer pronunciado, no fim da partida, me veio um estranho sentimento, o estômago embrulhou, a voz emudeceu, os olhos pararam de piscar por instantes, e uma lágrima solitária escorreu. Pronto, todos os planos e dias me preparando para aquilo foram por água abaixo.

Não senti o desespero de 2002, de sair quebrando tudo, dessa vez sofri calado, sozinho no sofá, enquanto minha esposa fazia sei lá o quê no quarto. Enxuguei minha única lágrima e desliguei a TV. Mais tarde, sentado embaixo do chuveiro, comecei a reorganizar as ideias, passei a tentar compreender toda aquela avalanche de sentimentos e sensações. Foi quando me dei conta de que o aperto no coração estava apenas começando. Noite em claro, algumas poucas lágrimas e uma certeza: daremos a volta por cima. É a única certeza que tenho. Nem me perguntem baseado em quê ou em quem afirmo isso, não perguntem nada, pois não saberia responder, apenas sinto.

Passado o trauma primário e impactante, continuo sem dormir, madrugadas repletas de leves cochilos e só. No pouco que durmo, sonho com lances capitais, como os gols roubados do Cruzeiro, o “pênalti” para o Bahia, o pênalti perdido de Valdivia contra os Bambis logo após a conquista da Copa do Brasil, a defesa de Diego Cavalieri no chute do Mauricio e outros tantos lances que poderiam ter nos ajudado. Acordo atordoado, ligo o computador e volto ao mundo real. Caímos mesmo. De novo.

Como dito no início do texto, hoje eu não tenho frases elaborados ou palavras bonitas para escrever. Hoje eu não tenho ânimo para melhorar o astral de ninguém, hoje eu não sou Fellipe Málaga, hoje eu sou apenas um zumbi, um zumbi alviverde ainda, lógico, alguém que desligou logo após o apito final da partida contra o Flamengo e não conseguiu religar as turbinas e os motores. Estou à deriva.

Mas se você tiver a ousadia de me perguntar sobre o amor que sinto pelo Palmeiras, a resposta será súbita: depois do último domingo, meu amor pela Sociedade Esportiva Palmeiras apenas aumentou, consideravelmente, tanto a ponto de me fazer esquecer toda a tragédia e sair às ruas vestido com o manto sagrado alviverde. A ferida não tem prazo para cicatrizar, mas meu sangue é forte, deixa sangrar, deixa magoar, uma hora isso para, como parou em 2002…