Perguntas e respostas sobre o Torneio Roberto Gomes Pedrosa

Tem muito jornalista falando (mal) sobre o dossiê a Taça Brasil, o Robertão e ignorando a importância desses torneios para o futebol brasileiro. Vários clubes campeões destes torneios, incluindo o Palmeiras, prepararam um dossiê (que você vai poder ler aqui em Mondo Palmeiras), e um projeto de unificação dos títulos nacionais a partir de 1959.

Antes de ler o dossiê, no entanto, é importante que você saiba o que foram estes torneios, e não fale bobagem como estão fazendo por aí. Vamos falar hoje sobre o Robertão…a respostas são do jornalista Odir Cunha, autor do dossiê.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa foi uma competição nacional oficial?

Sim. Reuniu as mais destacadas equipes brasileiras em eventos anuais de 1967 a 1970.

O Torneio Rio-São Paulo não tinha esse mesmo nome?

Sim, a denominação oficial do torneio que envolvia os principais times cariocas e paulistas era Roberto Gomes Pedrosa, mas popularmente era conhecido como Torneio Rio-São Paulo.

A partir de 1967 a competição contou com a inclusão de equipes de outros centros importantes do futebol brasileiro, como Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pernambuco e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa ganhou status de competição nacional. Por ser um Rio-São Paulo estendido, tornou-se conhecido como “Robertão”, em 1970 foi denominado “Taça de Prata” e a partir de 1971, Campeonato Nacional.

O Robertão foi disputado simultaneamente à Taça Brasil?

Sim. Em dois anos, 1967 e 1968, o Brasil teve duas competições nacionais de valor equivalente: a Taça Brasil e o Roberto Gomes Pedrosa. Esse fato é comum em outros países. O maior exemplo é a Argentina, em que há o campeão do Torneio Apertura e depois o do Clausura. Em 1967 o Palmeiras venceu tanto a Taça Brasil como o Roberto Gomes Pedrosa, e em 1968 o Botafogo venceu a Taça Brasil e o Santos o Roberto Gomes Pedrosa.

A imprensa dava ao Roberto Gomes Pedrosa o peso de um Campeonato Nacional?

Sem dúvida. O campeão do Roberto Gomes Pedrosa era considerado campeão brasileiro. Reportagens de jornais e revistas provam isso.

Detalhe – Doze anos depois do Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970 (Taça de Prata), a revista Placar, em sua edição 658, de 31 de dezembro de 1982, trouxe uma reportagem de capa, de 10 páginas, anunciando “O Primeiro Ranking do Futebol Brasileiro”. Nesta reportagem, a principal revista de futebol do País considerava o Roberto Gomes Pedrosa a mesma competição que depois se chamou Campeonato Nacional. Dizia a matéria:

No Campeonato Brasileiro – assim considerado a partir do Robertão, ou Taça de Prata –, estamos valorizando, além do título de campeão, os vice-campeonatos… (página 18 do dossiê).

…Torneio Roberto Gomes Pedrosa, antigo Rio-São Paulo, que naquele ano foi ampliado com a inclusão de times do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná. A partir de 1971, já como Campeonato Brasileiro, o certame foi inchado gradativamente, graças a interesses… (página 20 do dossiê)

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa tinha um nível técnico inferior ao do Campeonato Nacional?

Não, ao contrário. A primeira edição do Campeonato Nacional, em 1971, ainda manteve o mesmo nível do Roberto Gomes Pedrosa, pois ampliou o número de participantes apenas de 17 para 20. Porém, a partir de 1972, o Nacional passou a ser aumentado a cada ano, para atender aos desejos do Governo Militar de integrar o País pelo futebol. Com convidados aos montes, muitos sem a mínima qualidade técnica, a competição chegou a 79 equipes em 1979, das quais pouco mais de uma dúzia compunham a elite do futebol nacional. Isso tornou o campeonato extremamente deficitário e contribuiu para o empobrecimento dos clubes, que em determinado momento não puderam mais manter as suas estrelas.

Detalhes – Em 1972, aos 20 participantes de 1971 foram incorporados mais seis equipes: CRB, de Alagoas; Nacional, do Amazonas; ABC, do Rio Grande do Norte; Remo, do Pará; Sergipe, de Sergipe, e Vitória, da Bahia.

Em 1973 foram convidados mais 15 times para o Nacional, que alcançou o número de 40 participantes. A competição foi inchando a cada ano, até que em 1979 atingiu o absurdo recorde de 96 participantes. Durante 14 anos, provavelmente os mais funestos para o futebol brasileiro, este campeonato não teve menos do que 40 participantes.

Por ter mais participantes, a fórmula do Campeonato Nacional não era mais justa do que a do Roberto Gomes Pedrosa?

Em absoluto. No Roberto Gomes Pedrosa (lembrando, sempre, que em 1970 ele teve o nome de Taça de Prata) os finalistas tinham de passar por uma longa fase inicial em que se defrontavam com todos os adversários, a maioria de altíssimo nível técnico. Depois, ainda havia uma fase final, entre os mais bem classificados. Era impossível chegar ao título do Robertão sem enfrentar as grandes equipes do País. Portanto, o título era sempre recebido sem ressalvas pela opinião pública.

No Campeonato Nacional a história era outra. A fase inicial tinha tantas equipes sem tradição que com sorte na chave era possível ser campeão jogando a maior parte das partidas contra adversários inexpressivos. Além disso, os regulamentos eram tão tortuosos que um time podia ganhar muito mais pontos do que os outros e mesmo assim chegar à final sem nenhuma vantagem – como em 1977, quando o Atlético/MG tinha 10 pontos ganhos a mais do que o São Paulo, estava invicto, mas perdeu o título nos pênaltis, depois de um empate em 0 a 0.

Detalhes – Para melhor avaliar o nível técnico dessas competições, tomemos como parâmetro os times que hoje fazem parte do Clube dos Treze (destes, o único que não tem correspondido às suas tradições nos últimos anos é o Bahia, mas não podemos nos esquecer de que é um clube que já tem dois títulos nacionais). Pois bem, vejamos quantos jogos contra adversários do Clube dos Treze estes campeões tiveram de fazer:

No Torneio Roberto Gomes Pedrosa

Palmeiras, campeão de 1967 – 20.

Santos, campeão de 1968 – 15.

Palmeiras, campeão de 1969 – 15.

Fluminense, campeão de 1970 – 15.

No Campeonato Nacional

Internacional/RS, campeão de 1976 – 7.

São Paulo, campeão de 1977 – 5.

Internacional, campeão de 1979 – 7.

Flamengo, campeão de 1980 – 7.

Grêmio, campeão de 1982 – 6.

Conclusão: Mesmo tendo um formato parecido ao do Roberto Gomes Pedrosa, o Campeonato Nacional tinha uma qualidade inferior e mais diluída – devido à grande quantidade de equipes convidadas – e isso criava atalhos que podiam facilitar o caminho até o título, aumentando a imponderabilidade da competição.

Os participantes do Campeonato Nacional não tinham de fazer muito mais partidas do que nos tempos do Roberto Gomes Pedrosa?

Não. No Nacional, um confuso sistema de pequenas chaves ia eliminando muitas equipes a cada etapa, reduzindo drasticamente o número de jogos que cada uma precisava fazer para alcançar as finais.

Detalhes – No Roberto Gomes Pedrosa, apesar de as competições terem um número seleto de participantes (15 em 1967 e 17 em 1968, 1969 e 1970), os campeões fizeram a média de 19,25 jogos.

No Nacional, a desproporção entre a quantidade de participantes e o número de partidas das equipes campeãs é assustadora. Em 1976, por exemplo, a competição teve 54 participantes, mas o Internacional só jogou 23 vezes. A diferença foi maior em 1977, quando havia 62 participantes e o campeão, São Paulo, só precisou fazer 21 partidas.

Mas o recorde foi mesmo em 1979, quando 96 times participaram da competição e o vencedor, o Internacional, só jogou 23 vezes, menos de ¼ do total. Em 1979 os únicos representantes paulistas foram Palmeiras e Guarani, que só entraram na terceira fase e poderiam ter chegado ao título com apenas sete partidas!

Mas o Campeonato Nacional não era jogado em pontos corridos?

Não. Ele geralmente era formado por uma infinidade de pequenos grupos, que classificavam os melhores para outros pequenos grupos, até que se chegasse a uma final. No máximo chegou a ter um turno inicial em pontos corridos, mas sua fase decisiva sempre foi em jogos eliminatórios, ou “mata-mata”. A fórmula da competição foi alterada todos os anos, de 1971 a 2002, e só chegou à versão atual, de dois turnos em pontos corridos, a partir de 2003.

As equipes campeãs do Robertão eram inexpressivas e por isso nem merecem ser lembradas?

Ao contrário. Os elencos dos times campeões do Torneio Roberto Gomes Pedrosa ainda hoje estão entre os melhores já formados por estes clubes. Vejamos as escalações dos times campeões do Torneio Roberto Gomes Pedrosa:

1967 – Palmeiras: Perez, Djalma Santos, Baldochi, Minuca e Ferrari; Dudu e Ademir da Guia; Dario, Servilio, César e Tupãzinho (depois Reinaldo). Participaram ainda da competição os jogadores palmeirenses Gildo, Djalma Dias, Zequinha, Suingue, Gallardo e Geraldo Scotto. Técnico: Aymoré Moreira. Esta equipe era tão afinada que ficou conhecida como “A Academia”.

1968 – Santos: Cláudio; Carlos Alberto Torres, Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo; Clodoaldo e Lima; Edu, Toninho Guerreiro (Douglas), Pelé e Abel (Adílson). O time contava ainda com Marçal e Djalma Dias. Técnico: Antoninho. Destes, nove jogadores foram convocados por João Saldanha para as Eliminatórias da Copa de 1970.

1969 – Palmeiras: Leão, Eurico, Baldochi, Nélson e Zeca, Dudu e Ademir da Guia, Cardoso (Serginho), Jaime, César e Pio (Copeu).Técnico: Rubens Minelli.

1970 (Robertão/Taça de Prata) – Fluminense: Félix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antônio (Toninho); Denílson e Didi; Cafuringa, Samarone, Flávio e Lula. Técnico: Paulo Amaral. Jogaram ainda Jair, Mickey e Cláudio. Esta equipe ficou conhecida pela imprensa como “A Máquina Tricolor”.

Algum campeão do Roberto Gomes Pedrosa representou o Brasil na Taça Libertadores da América?

Em 1968 participaram da Taça Libertadores os campeões e vices da Taça Brasil (Palmeiras e Náutico). Em 1969 e 1970 a CBD decidiu que os times brasileiros não participariam da Libertadores, considerada pela entidade uma competição deficitária e na qual os times brasileiros eram vítimas de pressão e violência quando jogavam fora.

Mas em 1971 os times brasileiros que jogaram a Libertadores foram o Fluminense e o Palmeiras, campeão e vice do Roberto Gomes Pedrosa/ Taça de Prata de 1970.