O viés nas pesquisas de torcedores

Vez ou outra, a grande mídia divulga pesquisas referentes ao tamanho das torcidas de futebol no país. Metodologicamente, diz-se que pesquisas com mais de duas mil amostras tendem a representar a realidade com um nível de significância satisfatório. Por exemplo, se queres entender o grau de obesidade da população de um país, basta aplicar pouco mais dois mil questionários, em diferentes localidades, que os resultados convergirão para uma aproximação da realidade. 

Além disso, ao desejar auferir uma proxy de indicadores econômicos em diferentes regiões do país, basta aplicar sua pesquisa nas capitais ou maiores cidades, as quais têm influência econômica, política e institucional sobre as cidades interioranas, que obterás um resultado muito próximo da realidade. É o que acontece com as pesquisas sobre variação do nível de preços, renda, etc, que em geral são aplicadas nas regiões metropolitanas do país. 

Porém, em certos casos, a representação de uma região específica não necessariamente converge-se à média da população. E este é o caso das torcidas de futebol. Ora, veja o exemplo de alguns times com torcidas regionais, e não necessariamente presentes em uma área metropolitana. Imagine, em um cenário hipotético, que toda a cidade de Piracicaba, com seus 400 mil habitantes, fosse XV de coração. Pelas pesquisas, por mais que o XV tivesse 400 mil fanáticos sofredores, estes simplesmente não existiriam, de acordo com tais pesquisas.

O mesmo aplica-se a outros times de massa, como o Palmeiras, que por razões históricas, possui uma torcida enorme no não menos importante interior paulista, com mais de 550 municípios e 20 milhões de habitantes (e 20% do PIB nacional), boa parte de descendência italiana, e consequentemente, com ascendência palestrina. 

Oras, essa massa de 20 milhões não é  representada nestas pesquisas (a exceção de uma ou outra, que considera Campinas e Santos, que juntas não somam 15% deste contigente esquecido), e hipoteticamente, poderá ignorar uma massa de 8 milhões de palmeirenses e gambás, 400 mil quinzistas e outros 30 mil são paulinos. Apesar dos exemplos exagerados, essa realidade é vista em diferentes regiões do país, e não podem ser ignoradas por estas pesquisas baratas e realizadas por pessoas incapacitadas e despreocupadas com a metodologia das mesmas. 

Eis que recentemente, algumas empresas de consultoria apareceram no cenário nacional, e utilizando-se do apoio gratuito de uma mídia ignorante no assunto e focada em um contingente de leitores ávidos por carne moída de 2ª e já mastigada, passaram a não só propagarem tais resultados viesados, como a utilizá-los para estimação de outras variáveis. 

A última delas preocupou-se em separar o joio do trigo, em um cesto repleto de grão de soja. E para isso, utilizou-se de tais equivocadas pesquisas para identificar quais times possuem maiores torcidas em seus estados de origem, e quais possuem em outros estados. E desse percentual, utilizaram-se de estimações de renda per capita por unidade da federação para simplesmente definirem as torcidas com maior poder de compra no país.

Os resultados são "tragicômicos", como pode-se observar. Por exemplo, mesmo proporcionalmente, aquela torcida famosa por aparecer em noticiários policiais possui, segundo tal pesquisa, maior poder de compra que outras, sejam estas conhecidas por possuirem um plano de sócio torcedor que sustenta o clube e o mantém competitivo, ou seja as que compram tantas camisas a ponto de fazer de seu time do coração um dos mais importantes para a maior empresa de material esportivo do mundo, mesmo esse clube não ganhando nada há tempos, sendo desorganizado e participante do decadente futebol brasileiro. 

Dessa forma, não há sentido em considerar-se tais resultados divulgados massivamente como parâmetros para definir investimentos de patrocinadores ou exposição na mídia. E deve-se, sempre que possível, questioná-los e exigir que a imprensa ressalte a falta de confiabilidade nas mesmas. Disso, não há o que condenar os "donos das pesquisas", pois as limitações das mesmas são enfatizadas em seus relatórios finais, o que aparentemente é ignorado por completo pela mídia e seus blogueiros ditos "cultos" e entendidos no assunto. 

Assim, mesmo que pouco significativos, ainda vale mais a pena observar dados de venda de PPV, valor médio do ingresso e absoluto de renda por jogo, e vendas de camisetas e produtos licenciados, como os indicadores mais próximos do verdadeiro tamanho e poder de consumo de uma torcida. E sabemos que disso, nosso Palmeiras é imbatível. E não se esqueçam de comprar a camisesta da temporada atual e comparecer aos jogos, e esperarem sentados a diretoria relançar o Avanti.

Abraço a todos!

*Daniel Capitani, frequentador do MONDO VERDE, é economista e doutorando em Economia Aplicada, e palestrino
verde.