Material esportivo – 3ª. parte: pirataria; fornecedor X fabricação própria

Bom dia, boa tarde e boa noite amigos do Mondo!

A pirataria das camisas dos times de futebol

 

No dia 14 de fevereiro de 2019, recuperando-se da cirurgia para retirada da bolsa de colostomia, o presidente Jair Bolsonaro recebeu no Palácio da Alvorada, alguns ministros para as tratativas do projeto de reforma da previdência.

Quando postou a foto da reunião nas mídias sociais, a imagem causou repercussão instantânea. O presidente usou uma camisa pirata do Palmeiras de 2007, quando a Adidas era a nossa fornecedora de material esportivo.

Muitas vezes fabricada por mão de obra semiescrava; sem recolher impostos; sem seguir nenhum padrão de qualidade; quase totalmente fabricada em países do sudeste asiático com entrada no Brasil via contrabando e se beneficiando da prática da corrupção para ser vendida, a pirataria causa prejuízos a todos.

Segundo o Fórum Nacional contra a Pirataria e Ilegalidade, em 2017, o Brasil perde R$ 130 bilhões anuais com pirataria, contrabando e comércio ilegal de produtos e conteúdo.

No futebol o problema é alarmante, 43,5% dos torcedores, que responderam à pesquisa do SPC Brasil, admitem que compram produtos piratas de futebol (3,4% disseram que compram apenas as falsificadas). Como não é possível quantificar o número de peças vendidas e nem qual a parcela da população consome produtos ilegais, a situação pode ser ainda pior. 

Mesmo com o cerco ao Allianz Parque em dias de jogos, é possível encontrar vendedores ambulantes agindo livremente e oferecendo uma camisa pirata do Palmeiras ao preço inicial de R$ 30.

Imagem: Torcedores.com

Buscando minimizar o problema, os clubes e seus fornecedores entram diariamente com ações na Justiça tentando impedir a comercialização de produtos piratas.

Para tentar se proteger, a Puma manteve em segredo todos os detalhes dos produtos do Palmeiras até seu lançamento no primeiro minuto de 2019. Além da curiosidade dos torcedores, a estratégia atrasou a produção dos piratas.

Paradoxalmente, podemos afirmar que a pirataria também beneficia os fornecedores. Quando um torcedor usa uma camisa pirata do seu time, ele está propagando a marca deste fornecedor. Ou seja, sem custos, a empresa acaba tendo sua marca disseminada pelos torcedores.

Uma das soluções que ajudaram a conter a pirataria na Europa foi a criação das camisas de fãs, feitas com materiais mais baratos e custando menos, mas não são réplicas das camisas usadas pelos jogadores.

No Brasil, o torcedor quer vestir a cópia da camisa que o ídolo usa, a camisa que ele vê nos estádios e na TV. A camisa oficial é o objeto de desejo e seu preço gera a seleção de quem pode e quem não pode compra-la.

Como existe a demanda, mesmo sendo um produto muito inferior, mas pagando um preço muito menor, muitos torcedores compram e irão continuar comprando as camisas piratas.

A comparação entre o contrato com um fornecedor X fabricação própria

Em 2016, após não renovar o contrato com a Puma e recusar a oferta da Adidas, o Paysandu chocou a indústria de fornecimento de material esportivo, quando anunciou que iria inovar e criar sua própria marca, a Lobo.

“Em 2015, recebemos R$ 472 mil de royalties. No ano seguinte, tivemos um lucro líquido de R$ 3 milhões“, declarou ex-presidente do Paysandu, Alberto Maia ao site UOL.

Deste então, o que parecia uma aposta se tornou uma realidade e vários clubes médios e pequenos do Brasil adotaram esse modelo.

O Juventude criou a 19Treze e o Fortaleza lançou a Leão1918, os dois times tinham contrato com a Kappa.

A OCTO (marca do Joinville) substituiu a Umbro. Depois de usar Penalty e Dryworld, o Santa Cruz desenvolveu a marca Cobra Coral. O número de equipes com marca própria aumenta a cada ano.

E os clubes passaram a ter mais trabalho e responsabilidades, como: estimar a demanda, controlar os pedidos, as vendas para a adequada fabricação (são usadas empresas terceirizadas para fabricar) e a distribuição para que não falte os produtos.

Controlando esse ativo, focando nas tradições do clube (muitas vezes os fornecedores desagradam os torcedores criando uniformes sem identificação com o time) com uma equipe própria de criação e de marketing para ouvir e disponibilizar os produtos que os torcedores desejam, esses clubes estão revolucionando o mercado e obtendo um ótimo retorno financeiro.

Mesmo vendendo as camisas por preços menores, houve aumento na margem de lucro, como explicou Paulo Lima, designer da Cobra Coral para o site mantosdofutebol.com.br:

“O motivo do Santa Cruz ter apostado em uma marca própria foi poder ter um melhor faturamento com seus uniformes. Os números iniciais foram bastante positivos, o clube superou as suas expectativas e teve recorde de venda nas suas duas primeiras semanas, sendo que o primeiro lote esgotou completamente nos dois primeiros dias.”

De aproximadamente R$ 800 mil recebidos da Umbro, em 2017, o Bahia com sua marca própria Esquadrão, em 2018, quintuplicou a receita com o material esportivo.

Dos grandes clubes, o Santos tentou uma estratégia diferenciada. Quando assinou com a Kappa em 2016, ficou estabelecido que o clube cuidaria de toda a distribuição, com um percentual maior do lucro nas vendas. No ano seguinte, alegando que o novo contrato traria um pouco menos de dinheiro para o clube, mas livraria o time praiano do desgastante (na visão dele) trabalho de gerenciar a distribuição, o ex-presidente Modesto Roma desistiu do modelo e assinou com Umbro.

Como é definido o desenho da camisa de um time?

Quando é criada uma nova camisa, fornecedor e clube devem respeitar as tradições do clube, combinar a estratégia e as diretrizes globais da marca com o marketing, os interesses e o estatuto do clube.

Trabalhando em conjunto, as duas partes devem gerar uma peça atrativa, que o torcedor sinta orgulho de possuir e de vestir.

O primeiro passo é da equipe de criação do fornecedor ao desenvolver alguns padrões visuais para a próxima temporada. Em seguida, deve adaptar esses desenhos as particularidades de cada clube.

O grande desafio da marca é lidar com as exigências do clube, pode ser por força do estatuto ou pelo desejo de manter a tradição em seus uniformes. Baseada no manual da marca do clube (guia com as cores e desenhos oficiais), a equipe de criação do fornecedor deve fazer o algo para diferenciar a nova camisa, atraindo as vendas.

É um longo processo, com muitas etapas de apresentações, correções e aprovações (todas camisas são aprovadas pelos dirigentes do clube). Em alguns casos, pode levar mais de um ano da apresentação da ideia inicial até o lançamento oficial do novo uniforme.

Segundo Chris Stride, estatístico do Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffield, que em 2014, fez um levantamento sobre a evolução de todos os uniformes dos times da 1ª. divisão da Inglaterra, apesar da ousadia e inovações a partir da década de 1980, as camisas principais das equipes tornaram-se mais próximas aos desenhos tradicionais nos últimos 20 anos.

Ele explica dizendo que a partir da década de 1990, as camisas passaram a ser usada por adultos e com os times usam as camisas como parte da estratégia ampliada de marketing. Ao utilizarem as imagens nostálgicas, os clubes se retratam como tradicionais e autênticos, qualidades que agradam os mais velhos.

No último post sobre os fornecedores de material esportivo trataremos a relação do Palmeiras com a Puma (cláusulas contratuais, valores e projeções)?

Abraço a todos!