Baú do Palestra – 41 anos de uma vitória eterna

periquitoAmigos palestrinos, para esta última coluna do ano de 2015 resolvi aproveitar a data (22 de dezembro) para relembrar de uma conquista eterna da Sociedade Esportiva Palmeiras.

Hoje completam 41 anos da histórica final do campeonato paulista de 1974, aquela em que o Palmeiras venceu cem mil corintianos no Morumbi.

Porém, vamos começar pelo como foi o campeonato daquele ano.

O Palmeiras começou o campeonato paulista recuperando-se da gloriosa ressaca dos títulos brasileiros de 1972 e 1973 (que foi decidido em fevereiro de 74), além de ter cedido seis jogadores para a seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo daquele ano, que foi disputada na Alemanha.

Com o início do primeiro turno em agosto de 74, o time da Academia realizou essa primeira fase sem a mesma eficácia dos anos anteriores e terminou o turno na quinta colocação, com 16 pontos – três a menos que o líder Corinthians.

Com a vaga garantida para a decisão, o Corinthians resolveu disputar as partidas do segundo turno com os reservas na maioria dos jogos e os titulares jogando apenas os clássicos.

Com o time novamente reencorpado, o Verdão terminou o segundo turno invicto com nove vitórias e quatro empates, marcando 21 pontos na tabela e ficando com o título do returno que valeu a vaga para a decisão do título contra o eterno rival.

Confira a campanha do Palmeiras na fase de classificação do Paulista-1974:

1º turno

Palmeiras 2 x 2 Saad
Ponte Preta 0 x 0 Palmeiras
Corinthians 3 x 1 Palmeiras
Palmeiras 1 x 0 Guarani
Palmeiras 0 x 0 Juventus
Palmeiras 0 x 0 Santos
São Bento 0 x 2 Palmeiras
Noroeste 1 x 2 Palmeiras
América 0 x 1 Palmeiras
Portuguesa 1 x 1 Palmeiras
Botafogo 2 x 3 Palmeiras
Palmeiras 0 x 2 Comercial
São Paulo 1 x 1 Palmeiras

 

2º turno

Palmeiras 2 x 0 América
Palmeiras 1 x 1 Portuguesa
Palmeiras 4 x 0 São Bento
Palmeiras 1 x 0 Ponte Preta
Palmeiras 3 x 1 Botafogo
Palmeiras 2 x 1 São Paulo
Palmeiras 1 x 0 Saad
Comercial 1 x 1 Palmeiras
Palmeiras 2 x 0 Santos
Palmeiras 1 x 0 Noroeste
Palmeiras 2 x 2 Juventus
Guarani 0 x 0 Palmeiras
Palmeiras 4 x 1 Corinthians

 

A decisão

Com a final do campeonato paulista definida entre Palmeiras e Corinthians, como não poderia ser diferente, o assunto “fim da fila corintiana” estava mais do que nunca na pauta da mídia e na boca do povão.

O arqui rival do Parque São Jorge não vencia um título importante desde 1954, quando venceu o campeonato paulista daquele ano. Desde então, o clube e sua torcida amargavam um jejum no qual, durante os anos 1960, o time chegou a ser chamado de “faz-me rir” devido a tantas decepções que ele impunha a sua torcida.

Mas em 1974, comandado por Rivelino (o novo camisa 10 da seleção, já que Pelé havia se aposentado), o Corinthians trouxe o goleiro argentino Buttice, o zagueiro Brito (tri-campeão mundial com a seleção de 1970), mais os atacantes Zé Roberto e Lance.

Com um time que, no papel, era o mais forte dos últimos anos, a torcida corintiana estava confiante no final do tabu e boa parte da mídia – composta por jornalistas corintianos – ajudava a aumentar o clima de “já ganhou” pelos lados do Parque São Jorge.

O Palmeiras disputou todo segundo turno e a decisão do campeonato paulista daquele ano com o centroavante Ronaldo, já que César Maluco pegara uma suspensão de seis meses por antidoping.

Apesar da ausência do segundo maior artilheiro da história palmeirense, o atacante Ronaldo, que viera do Atlético-MG em 1972, estava acostumado com grandes jogos e a atuar sempre, pois era um reserva quase titular, já que ele atuava também como meia armador e era constantemente utilizado pelo técnico Oswaldo Brandão.

A disputa da taça foi em duas partidas.

A primeira foi realizada no dia 18 de dezembro, no Pacaembu, uma quarta-feira à noite, e com dois gols relâmpagos, Palmeiras e Corinthians ficaram no 1 a 1.

A segunda partida entrou para a história do Verdão.

Com o clima de “já ganhou” alimentado pela imprensa, o Morumbi (que passou seis meses fechado para reformas) foi palco apenas da última partida daquele campeonato e recebeu 120 mil pessoas para acompanharem a decisão. Eram 100 mil corintianos e 20 mil palmeirenses.

O pré-jogo mostrava como seria o estádio naquele dia.

Nas ruas, a caminho do estádio, via-se um número gigante de carros com bandeiras corintianas e muitos torcedores do arqui rival já desfilavam com faixas escrito “Coringão campeão de 74”.

Porém, como já disse mais de uma vez o nosso amigo Mariano Barrella, atual diretor do acervo histórico do Palmeiras, o Corinthians venceria qualquer rival naquela final, menos um: o Palmeiras da segunda academia.

Imprensa e corintianos esqueceram-se que do outro lado havia Ademir da Guia, Alfredo, Leivinha, Luis Pereira, Dudu, Nei, Leão e Oswaldo Brandão.

Não seria nenhum pouco fácil para o Corinthians vencer esse timaço acostumado com títulos e grandes decisões. Isso ficou claro já na hora da execução do hino nacional, com os times perfilados, onde era possível observar a face nervosa dos atletas corintianos e o rosto tranquilo dos jogadores palmeirenses.

A superioridade técnica, tática e emocional ficou evidente quando a bola começou a rolar. Após os primeiros minutos, quando o Corinthians tentou uma pressão, o Palmeiras começou a tocar a bola e dominar a partida, impedindo o adversário de ficar com a posse de bola e enervando ainda mais o já desesperado Corinthians.

No segundo tempo, o domínio palmeirense prosseguiu até os 24 minutos, quando em uma roubada de bola histórica de Luis Pereira para cima de Rivelino, o zagueirão alviverde (o maior zagueiro da história do futebol brasileiro) tocou rápido para Ronaldo, no meio de campo, que abriu o jogo na direita para Jair Gonçalves.

O lateral que substituía Eurico cruzou para a entrada da área e a bola encontrou Leivinha, que passou de cabeça para Ronaldo.

O camisa 9 do Verdão acertou um chutasso, de primeira, o goleiro argentino Buttice do Corinthians ainda tocou na bola, mas o arremate foi forte e preciso e a bola morreu no fundo do gol corintiano.

Nos minutos finais da partida o Palmeiras ainda marcou um segundo gol, através de Fedato, mas o árbitro Dulcídio Wanderley Boschillia acabou, erroneamente, anulando o tento.

A torcida corintiana, calada, começou a queimar as próprias bandeiras e atirá-las, em chamas, do alto da arquibancada do Morumbi, enquanto os palmeirenses entoavam um grito que entrou para a história: “Zum, zum, zum é vinte um” – em referência a mais um ano de fila do rival.

Confira a ficha técnica:

2º jogo da final

Palmeiras 1 x 0 Corinthians

Data: 22/12/1974

Palmeiras: Emerson Leão; Jair Gonçalves, Luis Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, Ronaldo e Nei. Técnico: Oswaldo Brandão

Corinthians: Buttice; Zé Maria, Brito, Ademir e Vladimir; Tião e Rivelino; Vaguinho, Lance, Zé Roberto (Ivan) e Adãozinho (Pita). Técnico: Silvio Pirilo

Local: Estádio do Morumbi

Árbitro: Dulcidio Wanderley Boschillia

Renda: Cr$ 2.322.658

Público: 120.522 torcedores

Gol: Ronaldo, aos 24 minutos do segundo tempo.