As muitas memórias de uma conquista recente

A noite da última quarta-feira foi inesquecível para toda a coletividade palmeirense. A vitória no tempo normal e nos pênaltis sobre o Santos valeu para o Palmeiras o tricampeonato da Copa do Brasil, além disso, podemos com toda a certeza que essa conquista foi cheia de simbolismos.

Eu fui ao jogo, acompanhado de minha esposa, e lá encontrei vários amigos, tanto na porta do Allianz Parque como dentro do estádio, o que trouxe à memória várias lembranças que vivi nos anos 90 e começo de 2000.

Hoje eu tenho 37 anos. Eu vi o Palmeiras ser campeão pela primeira vez em 1993, quando eu tinha 15 anos. Logo, eu vi uma parte da fila de 16 anos que clube ficou sem conquistar títulos.

Mas a minha adolescência foi recheada de vitórias. Todas as que eu não vi na infância, eu vi com sobras quando adolescente. Eu cresci com a cabeça e o olhar em uma geração que não vi jogar. Pelo menos não ao vivo.

Antes de o Palmeiras vencer o campeonato paulista de 1993, um dos meus maiores passatempos era assistir o programa “Grandes Momentos do Esporte”, apresentado pela TV Cultura nas tardes de sábado.

Lá eu assisti o Palmeiras da segunda academia, e vibrava com as vitórias conquistadas há mais de 15 anos, com um elenco que mesmo não sendo da minha época, eu aprendi de cor a escalação: Leão; Eurico, Luis Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu, Ademir da Guia e Leivinha; Edu, Cesar e Nei.

Este time – que eu não vi ao vivo – povoava minha mente de torcedor todos os sábado à tarde.

Paralelo a isso, eu ficava pensando quando eu assistiria uma vitória de um Palmeiras da minha geração.

A Parmalat chegou ao Palmeiras em 1992, e já naquele primeiro ano, mais que a mudança de estilo do uniforme, jogadores como Zinho e Mazinho foram contratados e o Palmeiras chegou ao vice-campeonato paulista.

Uma pausa: O torcedor deve estar perguntando por que eu estou escrevendo sobre a década de 90 e início de 2000.

Respondo:

Depois da partida de quarta-feira passada, já em casa, eu fiz um paralelo entre algumas situações vividas naquele período e todo o turbilhão de emoções vividas no dia 2 de dezembro de 2015.

Apesar de não estarmos na fila, (o Palmeiras foi campeão paulista em 2008 e campeão da Copa do Brasil de 2012), não há como esconder os problemas vividos pela instituição desde janeiro de 2001 (por tanto 14 anos) em que o palmeirense teve aguentar eliminações para times pequenos como na Copa Sul-americana de 2010, frente ao Goiás, ou para o Santo André e Ipatinga nas Copas do Brasil de 2004 e 2007.

Nem vou me estender ao mandato de Arnaldo Tirone (o pior presidente da em mais de cem anos de história), e aos dois rebaixamentos (2002 e 2012), pois esses temas serão para uma reflexão futura.

Porém, esses acontecimentos citados, após a saída da Parmalat, fizeram do título da Copa do Brasil de 2015 uma situação que trouxe vários paralelos para quem, como eu, viu o Paulistão de 1993 e a Libertadores de 1999.

Vamos a eles:

  • Situação do jogo:

1993 – assim como no Paulistão de 1993, o Palmeiras perdeu o primeiro jogo da final da Copa do Brasil. Como em 93, o adversário de agora era forte, mas não superior ao Palmeiras, e o placar magro conseguido pelo Santos no primeiro confronto deixou o Verdão bem vivo na disputa (o Corinthians venceu o primeiro jogo de 1993 por 1 a 0, e na segunda partida foi impiedosamente goleado por 4 a 0).

  • Torcida:

1999/2015 – aqui vai a comparação com o título da Libertadores de 1999, pois quem viu o velho Parque Antárctica naquele ano, bem como as ruas em torno do estádio, teve a mesma sensação de apoio e comunhão do time e da torcida. O antigo estádio foi um alçapão contra River Plate e Deportivo Cali, da mesma maneira que o Allianz Parque foi um alçapão contra Fluminense (semifinais) e Santos (final).

  • Expectativa da imprensa

1993/2015 – foram poucos os jornalistas que acreditavam em uma virada do Palmeiras. A maioria dizia que o Corinthians ficaria com a taça, mesmo o Palmeiras sendo melhor. Goleamos por 4 a 0 e fomos campeões. Isso também aconteceu em 2015, e mais intenso, já que 90% da mídia cravava como certeza total e absoluta uma conquista santista.

  • O estádio

1999/2015 – O velho Parque Antárctica viveu uma noite de glória em 16 de junho. Estádio completamente lotado e a torcida apoiando muito o time. A noite de 2 de dezembro de 2015 foi igualzinha. Como o novo estádio possui uma capacidade maior, as 40 mil pessoas que estiveram na partida contra o Santos apoiaram demais o time e criaram uma sintonia entre equipe e arquibancada que poucas vezes se viu no futebol brasileiro.

  • Pré- jogo

1999/2015 – Já que o estádio é novo e mais moderno, a torcida do Palmeiras também modernizou-se para o pré-jogo. As ruas foram tomadas por mais de 10 mil palmeirenses que não tinham ingresso, faixas nas cores da Itália foram penduradas pelas ruas e os bares – todos com telão – foram tomados por aqueles que não podiam entrar no estádio. O clima nas ruas era tão bom quanto dentro do Allianz.

  • Provocações

1993/2015 – Em 1993 tivemos Viola, centroavante do Corinthians, que foi autor do gol no primeiro jogo e provocou os palmeirenses ao imitar um porco na comemoração. Ele foi muito esculhambado após o segundo jogo, com cartazes tirando sarro dele (no qual ele levava uma enrabada de um porcão) e também de músicas como “boi, boi, boi… boi do Maranhão, Viola é artilheiro e o Evair é o campeão”.

Em 2015 tivemos Ricardo Oliveira, atacante do Santos, provocando o Palmeiras em todos os confrontos do ano. Após a vitória do Palmeiras, Ricardo Oliveira foi devidamente “zuado até dizer chega”, pelas provocações gratuitas que realizou.

  • A vitória

1993/2015 – Foi enorme a comemoração pelo título. Tudo o que vivemos de errado nos últimos anos foi exorcizado na quarta-feira passada. O drama e o alívio na fuga do rebaixamento no ano passado (ano do nosso centenário) e todas as lambanças que os mais variados cartolas promoveram no clube desde que a Parmalat deixou o clube foram, Deus queira, para o bueiro. Todos os palmeirenses estão com a sensação de que muitas outras glórias estarão por vir. Da mesma maneira que Belluzzo e Paulo Nicoli acertaram ao trazer a Parmalat, agora Paulo Nobre acertou em cheio ao trazer Alexandre Mattos. Além disso, a atual administração está explorando de maneira muito acertada o potencial do novo estádio, o que gera mais receitas e times mais fortes para o clube.

Desta veza coluna foi o relato da minha felicidade pelo campeonato e também as impressões e análises que fiz após o jogo.

Confio muito que 2016 tem tudo para ser inesquecível. Teremos o tradicional Campeonato Paulista, o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e também a Taça Libertadores da América.

Que mais títulos venham em um Allianz Parque lotado em 2016!