A era Alexandre Mattos: Mittos ou Miccos? – Parte II

 

R$ 107,4 milhões em contratações e mais 15 jogadores

O jogador Keno, da SE Palmeiras, durante treinamento, na Academia de Futebol.

Sempre perseguindo o enganoso e desastroso mantra “Libertadores é obsessão”, o Palmeiras foi às compras de maneira mais agressiva em 2017 e mais que dobrou seu investimento.

Entre os grandes acertos, o maior deles foi Keno. Após chamar atenção jogando no Santa Cruz, foi contratado por R$ 3 milhões, jogou muito e foi vendido R$ 35 milhões ao Pyramids do Egito.

Nos erros, dois atletas ainda estão no elenco e que a torcida reza para eles não jogam mais no clube: Deyverson (indicação de Cuca, que custou a bagatela de R$ 18 milhões) e Borja.

 

Miguel Borja carregado nos ombros da Mancha Verde

Pressionado e cobrado pela torcida, usando toda sua competência de negociador, superando inclusive o interesse de clubes chineses, Mattos acertou a contratação do atacante Miguel Borja juntou ao Atlético Nacional.

Artilheiro da Libertadores de 2016, Borja custou US$ 10,5 milhões ou R$ 32,7 milhões, a mais cara compra efetuada pelo Palmeiras e a quarta contratação mais cara do futebol, atrás apenas de Tévez pelo Corinthians, Leandro Damião pelo Santos, e Alexandre Pato novamente pelo Corinthians.

Após desembarcar no aeroporto de Guarulhos, o assustado Borja foi carregado nos ombros da torcida Mancha Verde, talvez o maior momento de glória do atacante no clube.

Bom finalizador quando recebe as bolas nas diagonais, se mostrou um centroavante limitado e que nunca supriu a necessidade de um goleador.

Com um contrato talvez mal redigido ou acreditando que iria vender o jogador, em agosto de 2019 o Palmeiras pagou mais R$ 11 milhões ao Atletico Nacional.

 

Cuca não resistiu e saiu

Após desentendimento com Felipe Melo, que ocasionou o afastamento do atleta, Cuca saiu do Palmeiras em outubro e Melo foi reintegrado.

Após a recusa de Mano Menezes de trocar o Cruzeiro pelo Palmeiras, comandado por Alberto Valentim, o time reagiu na reta final do Brasileirão, mas foi roubado nos jogos contra o Cruzeiro e o Corinthians, e terminou como vice-campeão.

 

Jogadores contratados em 2017  
Jogador e Posição Empréstimo ou Definitivo (Valor da aquisição)
Guerra (meia) definitivo – US$ 3 milhões
Antônio Carlos (zagueiro) empréstimo
Fabiano (lateral-direito) definitivo – troca por Robinho
Mayke (lateral-direito) empréstimo
Luan (zagueiro) definitivo – R$ 10 milhões
Felipe Melo (volante) definitivo – fim de contrato
Hyoran (meia-atacante) definitivo – € 2 milhões
Keno (atacante) definitivo – R$ 3 milhões
Michel Bastos (meia) definitivo – fim de contrato
Borja (atacante) definitivo – US$ 10,5 milhões
Raphael Veiga (meia) definitivo – R$ 4,5 milhões
Willian (atacante) definitivo – troca por Robinho
Juninho (zagueiro) definitivo – R$ 10 milhões
Bruno Henrique (volante) definitivo – € 3,5 milhões
Deyverson (atacante) definitivo – € 5 milhões

 

2018: o incrível assalto a mão armada na final do Paulista, pouco investimento e Felipão salva o ano 

Após uma denúncia anônima, a Crefisa foi multada pela Receita Federal e o contrato de patrocínio/contratação de jogadores com o Palmeiras foi alterado, representando uma queda brusca de investimento.

Foi o ano de menor gasto da era Mattos, R$ 21,2 milhões e 8 jogadores contratados.

Roger Machado: a nova vítima da máquina de demitir treinadores

 

Anunciado em novembro de 2017, Roger assumiu o cargo em janeiro de 2018.

Fez uma ótima primeira fase da Libertadores, vencendo o Boca Juniors em La Bombonera e tudo caminhava bem, até que chegou o dia 8 de maio de 2018.

Perdendo de um a zero e precisando apenas de um empate, o Palmeiras foi roubado, assaltado, garfado etc. pela arbitragem, que marcou e depois voltou atrás em pênalti de Ralf em Dudu, e perdeu o “paulistinha”.

Alguém tinha que pagar o pato, então em julho, Roger foi demitido, após derrota contra o Fluminense por 1 a 0 no Maracanã, na 15ª rodada do Brasileirão. Seu aproveitamento geral era de 63%.

Weverton e Gustavo Gómez, os acertos

 Campeão olímpico em 2016, apesar de ficar livre do contrato com o Atlético-PR em maio de 2018, o Palmeiras pagou R$ 2 milhões para ter o goleiro Weverton em janeiro de 2018. Decisão inicialmente criticada, mas que o tempo demonstraria ser acertada.

Em julho, após longa negociação, o zagueiro paraguaio Gustavo Gómez chegou ao clube, emprestado pelo Milan da Itália. Foram pagos inicialmente €$ 1,5 milhão, ou R$ 6,5 milhões, com o passe fixado. Titular absoluto, Gómez é o principal defensor do time.

Chama o Felipão 

Em agosto, pela terceira vez, Luiz Felipe Scolari reassumiu o cargo de treinador do Palmeiras.

Como o calendário de jogos naquele momento envolvia três competições, Copa Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão, sabiamente ele montou dois times, um para encarar as copas e outro para o Brasileirão, e conseguiu o apoio do vestiário.

Eliminado nas semifinais da Copa do Brasil e do torneio continental, levou o Palmeiras ao décimo título nacional. O ano foi salvo.

 

Jogadores contratados em 2018  
Jogador e Posição Empréstimo ou Definitivo (Valor da aquisição)
Diogo Barbosa (lateral-esquerdo) definitivo – € 3,2 milhões
Lucas Lima (meia) definitivo – fim de contrato
Weverton (goleiro) definitivo -R$ 2 milhões
Marcos Rocha (lateral-direito) empréstimo
Emerson Santos (zagueiro) definitivo – fim de contrato
Gustavo Scarpa (meia) definitivo – € 1,5 milhão
Nico Freire (zagueiro) empréstimo
Gustavo Gómez (zagueiro) empréstimo

 

2019: do “Melhor ano de nossas vidas” para “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!”

 

O ano de 2019 começou pintado de verde.

O treinador, muito identificado com a torcida, foi mantido, e fez o planejamento da temporada.

O clube, com faturamento de R$ 688 milhões, bateu o recorde de receitas, superando todos os clubes brasileiros. Havia grana a ser investida e isto foi feito, infelizmente da pior maneira possível.

Depois de longas e exaustivas negociações, habilmente conduzidas pelo presidente, com a Rede Globo aceitando a maioria das cláusulas, o Palmeiras renovou o contrato dos direitos de TV com o Brasileirão já em andamento e diminuiu a distância de valores recebidos em relação ao Corinthians e ao Flamengo.

 

Ricardo Goulart, o Palmeiras tinha apenas uma bala?

Além de Hulk, o atacante Ricardo Goulart sempre esteve nas listas de desejos dos palmeirenses, e o desejo se tornou realidade em janeiro, quando o Guangzhou Evergrande da China aceitou emprestá-lo.

Cinco meses, doze partidas, quatro gols e três assistências depois, o jogador que seria a peça mais importante do novo modelo de jogo imaginado por Felipão e Paulo Turra, voltou para a China.

Mesmo recuperando os R$ 14 milhões referentes aos vencimentos do jogador, a perda técnica foi grande. Mas ele não teria jogado, pois permaneceu contundido praticamente até o final deste ano. Dos males, o menor.

 

A estratégia de contratar jogadores novos

 Ao longo dos cinco anos no comando do futebol do clube, uma das estratégias que Mattos adotou foi de contratar por baixos valores, jogadores que se destacavam nos clubes pequenos ou médios para fazê-los render tecnicamente e financeiramente ao Palmeiras.

Nos anos anteriores, houve casos de sucesso como Roger Guedes, Tchê Tchê e Moisés, entre outros.

Esse ano, mão funcionou: Zé Rafael, Matheus Fernandes, Arthur Cabral e Felipe Pires aumentaram o elenco, tiraram espaço de jogadores da base como Artur (emprestado ao Bahia), e não justificaram a vinda.

 

Carlos Eduardo, uma lição de como não contratar

Após 10 jogos e apenas um gol (apesar de ter sido o da vitória contra o São Paulo na fase de classificação do “paulistinha”), indicado por alguém que ninguém sabe ou assume (depois do fracasso ninguém admite que pediu o jogador), o ponta Carlos Eduardo foi contratado junto ao Pyramids, por estratosféricos US$ 6 milhões ou R$ 23 milhões e cinco anos de contrato.

Todos sabiam que o jogador, de 24 anos, nunca valeu esse valor, mas mesmo assim o contrataram.

Era o fim da idolatria por Mattos, que passou a viver uma nova realidade. Foi acusado sem provas, perseguido e até ameaçado fisicamente.

 

A Copa América e tudo mudou

 Após ser eliminado pelo São Paulo nos pênaltis nas semifinais do “paulistinha”, o Palmeiras fez uma avassaladora primeira parte do Brasileirão. Foram nove jogos, com oito vitórias e um empate.

Com as aves de mau agouro da imprensa dizendo que o time podia fazer o churrasco do título, após o campeonato ser interrompido para a disputa da “maledetta” Copa América, dormimos líderes na nona rodada e acordamos no segundo lugar, a três pontos do Flamengo, na décima-sexta. Detalhe: tínhamos oito pontos a mais do que eles após aquelas nove rodadas iniciais.

 

O Flamengo atira no que viu e acerta no que não viu

 Enquanto isto, com boa condição financeira, fruto de um bom planejamento de longo prazo iniciado anos atrás e beneficiado pela mamãe Globo que paga muito a um dos dois filhos queridos, o Flamengo começou o ano com Abel Braga de treinador, nítida aposta em um profissional experiente, como havíamos feito com Felipão.

Na parada da Copa América, resolveram demitir Abelão e trouxeram o treinador português Jorge Jesus, além de contratar quatro jogadores para serem titulares. Simplesmente acertaram com todos. Os deuses do futebol conspiraram com todas as forças para o time da gávea. Deu tudo certo.

Uma desastrada coletiva de imprensa e Felipão vai embora

O técnico Felipão, o diretor de futebol Alexandre Mattos e o gerente de futebol Cicero Souza (E/D), da SE Palmeiras, concedem entrevista coletiva, na Academia de Futebol.

Depois da eliminação vexatória para o Grêmio, no dia 29 de agosto,  no jogo de volta das 4ªs de final da Libertadores, Mattos, Cícero e Felipão, em uma longa coletiva, pediram desculpas à torcida e reafirmaram a continuidade do trabalho.

No domingo, dia 1º de setembro, o Palmeiras perdeu por 3 a 0 para o Flamengo no Maracanã, levando um baile de bola. No dia seguinte, Felipão foi demitido, sendo substituído por Mano Menezes.

 

O problema ético:  Mattos aluga imóveis para funcionários da comissão técnica

Atacado pela torcida organizada Mancha Verde, em outubro, vazou a notícia que Mattos aluga dois imóveis para integrantes da comissão técnica do clube. E pior, antes de alugar os imóveis, Mattos solicitou aumento do auxílio moradia dos dois profissionais.

A pressão, que era grande, aumentou ainda mais, e até quem o apoiava começou a dizer que ele deveria ser demitido, caso de Leila e de Seraphim Del Grande, presidente do Conselho Deliberativo.

Mesmo com o aparente apoio do presidente, a queda era uma questão de tempo.

Novamente uma derrota para o Flamengo, e a era Mattos acaba. 

Um time sem alma, jogadores apáticos, mais uma derrota para o Flamengo, a queda de Mano e o final da era Mattos, que irá receber R$ 3 milhões de multas rescisórias.

O legado de Alexandre Mattos 

Ajudando a ressuscitar um clube quase falido, Paulo Nobre e Alexandre Mattos personificam o ressurgimento do Palmeiras como força no futebol brasileiro a partir de 2015.

Seu legado, como a maioria das situações da vida, apresenta pontos positivos e negativos:

Positivos: grandes contratações (habilíssimo negociador, talvez um dos maiores da história do futebol brasileiro) como Dudu, Mina, Gómez, Tchê Tchê, Roger Guedes, entre outros; grandes vendas (exemplo: a venda de Gabriel Jesus para o Manchester City por €$ 32,75 milhões ou R$ 121,1 milhões); modernização e a organização do futebol profissional do Palmeiras; reformulação do departamento médico com novos profissionais, metodologia e uso de métodos científicos; fortalecimento e integração do futebol da base com o profissional são as marcas deste excelente e qualificado profissional.

Negativos: muitas contratações, principalmente de jogadores de qualidade técnica duvidosa com contratos com 4 ou 5 anos de duração; excessiva troca de treinadores; não aproveitamento de jogadores da base; a insistência em treinadores com um único modelo de jogo, o modelo reativo, com pouca posse de bola, que sacrificou todos os meias de ofício que jogaram no time desde 2015; não ter solucionado, em 2018 e 2019, o recorrente problema de um centroavante de qualidade, situação que não permitiu a conquista de mais títulos e a problemática negociação de aumentos de ajuda de moradia com o consequente aluguel de dois imóveis para subordinados, arranharam a imagem e de certa forma podem prejudicar o futuro da sua carreira.

 

Jogadores contratados em 2019  
Jogador e Posição Empréstimo ou Definitio (Valor da aquisção)
Mayke (lateral-direito) definitivo – € 3,5 milhões
Zé Rafael (meia) definitivo – R$ 14,5 milhões
Arthur Cabral (atacante) definitivo – R$ 5 milhões
Matheus Fernandes (volante) definitivo – € 3,5 milhões
Carlos Eduardo (atacante) definitivo – US$ 6 milhões
Felipe Pires (atacante) empréstimo
Marcos Rocha (lateral-direito) definitivo – R$ 8 milhões
Ricardo Goulart (meia-atacante) empréstimo
Ramires (volante) definitivo – fim de contrato
Vitor Hugo (zagueiro) definitivo – € 5,5 milhões
Henrique Dourado (atacante) empréstimo
Luiz Adriano (atacante) definitivo – fim de contrato

 

O Melhor time de Mattos    X          O Pior time de Mattos

 

Melhor                                              Pior

 

Weverton                                           Vagner

Mayke                                                Lucas

Mina                                                  Roger Carvalho

Gustavo Gómez                                Leandro Almeida

Zé Roberto                                         Diego Barbosa

Tchê Tchê                                          Amaral

Bruno Henrique                               Rodrigo

Moisés                                               Fellype Gabriel

Dudu                                                  Carlos Eduardo

Luiz Adriano                                     Deyverson

Keno                                                   Felipe Pires

 

Uma ideia: um diretor técnico e um diretor comercial e administrativo

Como existe em vários clubes, deveríamos ter dois diretores, um diretor técnico para prospectar jogadores no mercado e fazer a adaptação dos jogadores da base no profissional e um diretor comercial e administrativo para desenvolvimento de negócios e administrar toda a infraestrutura da Academia de Futebol. 

Afinal: “Mittos” ou “Miccos”? 

Neste caso, amigo do Mondo, você é quem decide!